Corações de Chocolate

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Regresso por culpa do vento

Há muito que não o faço, que perdi a coragem e que me ausentei deste meu mundo. Mas, hoje, sinto que preciso de voltar. Após vários anos, algo me puxa novamente ao desabafo e me exige que volte. Por regra, é raro fazer as vontades ao meu subconsciente e acabo por sobrecarregá-lo com os pensamentos do mundo, contudo, tive necessidade de deixar o mundo de lado e de me focar apenas naquilo de que preciso. Sim, preciso de voltar. Preciso de regressar a este meu mundo onde posso ser apenas eu, sem máscaras. Nesta Casa sempre fui feliz sem julgamentos do mundo, mas quando o Sonho cresceu, parece que tudo se reduziu a nada, parece que soltar as palavras ao vento perdeu o sentido.
Olho à minha volta e questiono-me: quem sou eu de há uns tempos para cá? Tudo está diferente... A Casa do Sonho está diferente, embora tudo continue no mesmo lugar. Eu, principalmente, estou diferente. Foram anos a lidar com ausências, com portos de abrigo que deixavam de o ser em segundos, com toda uma atmosfera de mágoa, mas tudo isso foi com o vento. Tudo aquilo que outrora me magoara e me obrigara a derramar inúmeras lágrimas, perante estas quatro paredes que só esta Casa conhece, hoje obriga-me a levantar depois de cada recaída. Foram meses a lidar com a partida de alguém que, de facto, nunca teve intenções de ficar. Foram mais uns quantos meses a lidar com palavras banais sem intenção de se tornarem reais. Foram vários meses, talvez anos, a viver na ilusão e na irrealidade de que o "para sempre" fosse real. De facto, fui quem nunca pensei vir a ser. Transformei-me na mais submissa das almas, naquela que, cegamente, aceitava o destino, mesmo que sempre o tivesse desafiado. Talvez o problema tenha residido aí mesmo, em ter desafiado, toda uma vida, o destino. Ao que parece ele não gostou e colocou-me na derradeira prova de fogo, para ver até onde eu seria capaz de aguentar toda a trama. Foram tantas as vezes que caí e que permiti que o fogo se apoderasse de mim, ficando vulnerável ao mundo e aceitando todas as consequências sem contestar.
Perdi a conta ao tempo que permiti que o destino me usasse, até ao dia em que decidi voltar a desafiá-lo e a ser quem nunca tinha sido. Pouco a pouco levantei-me, inicialmente a medo, mas com a certeza de que não iria aguentar, nem mais um segundo, todo aquele mundo em que o destino me colocara. Contudo, todo aquele peso que carregara nos ombros obrigou-me a voltar a cair. Pensei não mais ter forças para me erguer, para colocar o peso do mundo nas costas como sempre fiz e caminhar, com o olhar focado no futuro. Mais uma vez, foram meses em que queria enfrentar o destino mas não me era permitido, algo me prendia e me fazia ter medo de deixar tudo para trás e de enfrentar as consequências de uma partida. Desta vez, da minha partida.
Pela primeira vez soube o quão bom era partir sem regresso, soube o quão revigorante é a liberdade de virar as costas a tudo e de esquecer que, durante tanto tempo, estive presa num mundo sem ambições, num mundo minúsculo no qual eu não conseguia sequer entrar, quanto mais permanecer. Era um mundo demasiado pequeno para o meu mundo nele se encaixar, mas só o percebi no dia em que saí, sem rumo, e com uma única companhia: o vento. Este tem sido o meu melhor amigo nos últimos tempos. Nunca me abandonou quando precisei de aliviar a mente, quando precisei de secar umas quantas lágrimas salgadas, quando precisei de sair sem rumo e de estar sozinha. Ele passou a ser o meu cais e é nele que procuro toda a minha força. Contudo, não tem sido suficiente. Habituei-me à sua presença e já não me sacia. Foi então que, sem eu esperar e muito menos querer, surgiu o meu verdadeiro cais. Aquele que me disse que não me iria deixar cair e que não me iria deixar contar apenas com o sabor do vento. Sem dar conta, já estava ao meu lado para lutar contra o mundo. Mas não é o mesmo de todas as outras vezes. Não consigo entender, mas não é igual a todas as mágoas e aventuras que vivi, pelo contrário, é demasiado irreal para ser real. Contudo, tem-se tranformado num autêntico quebra-cabeças e, por sorte (ou azar), eu adoro. Talvez por, desta vez, estar demasiado lúcida para mergulhar no mais fundo dos poços, quem sabe por medo de voltar a enfrentar o destino, eu goste de toda esta mistura de emoções.
Este é o meu regresso a esta Casa, a um mês de três anos que a expus ao mundo. Hoje o mundo conhece-a, mas nunca saberá o que aqui já senti, porque é impossível alguém entender o que esta Casa significa para mim, é impossível alguém entender tudo aquilo que se encontra nas entrelinhas ou até mesmo tudo aquilo que aqui já vivi. Mas algo é certo, foi aqui que cresci e o meu maior erro foi ter abandonado esta Casa depois de a ter exposto. Agora, sinto-me a traí-la, sinto-me a pior pessoa do mundo por ter partido sem uma despedida como habitualmente fazia, por ter abandonado esta Casa sem uma explicação, mesmo que essa explicação me fosse proibida de dar. Mas, de agora em diante, ninguém me irá tirar este porto de abrigo e o conforto que só aqui eu sinto. O vento fez-me regressar e eu própria me obrigo a ficar, pois só assim me sinto realmente bem comigo mesma. Só a deambular por entre inúmeras letras é que me sinto realizada. Vêm aí novos desafios, novos confrontos com o destino, mas por agora o meu regresso fica por aqui. Por agora, chega de dançar com as letras e de deixá-las voar com o vento. Por agora, estou bem. Quando a vida me obrigar a encarar o mundo irei voltar. Mas, por enquanto, vou deixar o vento resolver e esperar para ver onde me vai levar.

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