O tempo voou e, ainda assim, dei por mim a relembrar-te como se te tivesse perdido há uns dias. A dor parecia ser a mesma, talvez um pouco mais apaziguada e desvanecida pela poeira do tempo, mas com o mesmo peso de antes. A saudade... Ohh, essa parecia não ter fim, e desde que se instalou não encontrou o caminho de volta nem um novo espaço onde viver. E eu?! Aqui continuo, no mesmo sítio, sem conseguir amar além de ti, além da vida e além de mim. Estou feliz, como tu me pediste tanta vez que o fosse: por mim e para mim. Mas falta algo. No fundo, sempre faltará...
Seis anos. Foi há exatamente 6 anos que te escrevi as últimas palavras que tiveste minhas, em que te referi ter o mundo a meus pés e precisar de o abraçar. Cortei o clima com um "amo-te, para sempre" e, de seguida, sai da tua vida. Nem mais uma palavra trocada entre nós, até que te perdi para sempre. Seis anos desde esse dia: aquele em que prometi nunca te esquecer, mas também ser feliz sem ti. Mal sabia eu que a vida me obrigaria a ser feliz com o peso da dor e da saudade que a tua ausência deixou. Aquela menina inocente que acreditou na vossa relação e que fez all in contra o mundo, morreu no dia em que te viu ganhar asas e voar para bem longe dela. A menina dos olhos brilhantes cada vez que te abraçava, sentiu-se a transbordar de lágrimas por não te poder tocar novamente. A menina sorridente e a ganhar confiança em si, que tu criaste, desapareceu e recusou-se a voltar sem antes conquistar o mundo que tinhas planeado para ti. Essa menina, ficou presa no passado e até hoje nunca mais a encontrei. Mas sabes quem encontrei?! A mulher menina que te orgulharias de ter a teu lado. A mulher menina resiliente, corajosa, e com uma confiança muito superior àquela que ambicionavas que ela tivesse.
Não vou dizer que nestes seis anos foi fácil reviver histórias, falar de ti como se já fosses passado e não doesse, com um "já doeu mais, já aceitei" como resposta automática, e seguir em frente. Ninguém conseguiu ocupar o teu lugar, nem despertar um terço daquilo que tu me causavas. Existiram alguns erros de casting, mas nenhum deles teve a capacidade de me fazer sorrir da mesma forma e muito menos de reanimar as borboletas adormecidas que deixaste por aqui. Aquelas que quando os teus lábios tocavam a minha pele, acordavam e faziam o meu corpo arrepiar. As mesmas que esvoaçaram dias sem fim quando te perdi, sem rumo nem direção. Nem sempre as viagens turbulentas dessas borboletas foram por boas razões e, hoje, ao olhar para trás relembro as palavras que ouvi horas depois da tua notícia e reconheço que tu nunca foste perfeito, mas sim humano. Ainda assim, perdoei-te. Perdoei todas as vezes que me magoaste, todas as vezes que decidiste matar estas borboletas sem pensar duas vezes. Perdoei porque cada vez que as mataste também foste tu quem as reanimou, quem pegou nelas com cuidado e as trouxe de volta a mim, sem saberes o poder que tinhas em mãos ao me teres inteira a teu lado. A verdade é que foste tu quem me estilhaçou vezes sem conta, mas nada me empurrou com tanta força para o fundo do poço como saber que te perdi. E sabes que mais? Apesar de te perder, no fundo, encontrei-me a mim.
Em tempos senti culpa. Culpa de te perder para o mundo e não te poder segurar nos meus braços, de não te conseguir salvar quando recupero tantas vidas, de te ver desistir sem lutar uma última vez. Senti culpa por me recordar que eu era o teu porto seguro, a razão do teu equilíbrio e a tua calmaria perante as tormentas. Recordo-me de quando me disseste que eu era a razão pela qual continuavas a lutar. Gostava de ter sido forte o suficiente para não teres desistido de nós, de mim e consequentemente de ti. Durante bastante tempo achei que tinha que carregar os teus sonhos e objetivos como uma mochila nas costas, e que deveria levar-te em cada passo meu. A verdade é que estás em cada um, mas desta vez nos meus próprios passos, no meu próprio caminho, que eu tracei para ser feliz.
Seis anos desde que te vi pela última vez, no pior dos cenários que alguma vez juguei ser possível ver-te. Desde aí, dediquei-me por completo a salvar todas as vidas que possa, e a revoltar-me sempre que falho com alguma. Talvez tenha construído uma raiva insana contra a morte, e talvez seja essa razão de não aceitar desistir quando ainda vejo potencial na vida. Eu mesma, recuso-me a desistir de mim. Confesso que ultimamente não tem sido fácil. Sinto-me exausta por falhar tantas vezes com quem depende de mim. E eu sei bem o quanto me elogiavas ao mundo pelo meu amor gigante nos meus miúdos. Mas tu partiste cedo demais para conheceres o meu verdadeiro potencial. Aquele que eu sei que estou a perder se continuar a remar contra a maré.
20 de Agosto. Este é o dia que me causa mais ansiedade por não saber como vou estar até chegar a ele e o viver. São semanas de pânico sem saber se vou chorar, rir, isolar-me ou estar rodeada de pessoas. Nestes seis anos já o vivi de tantas formas que acredito que será sempre uma incógnita para mim, por mais anos que possam vir a passar. A verdade é que este ano serviu como um abre olhos para a realidade que não quero ver. Quando te perdi, aquilo que eu mais queria era curar-me: voltar a ser feliz e a sorrir, sem sentir dor nem vontade de arrancar o coração do peito, e, principalmente, sem me sentir morta por dentro. De facto, hoje é também aquilo que mais quero, uma vez mais. Desta vez as razões não são iguais, mas sinto que estou a deixar morrer algo que eu tanto amo, e não posso permitir-me a tal.
Sei que estás orgulhoso do meu percurso. Tenho observado os sinais que me vais deixando por aí e estou segura de que aquilo que eu conquistar, terá um dedo teu. Há dias que gostava de me cruzar contigo na rua, abraçar-te e dizer-te que foste a melhor coisa que me aconteceu, mas também a maior lição da minha vida, e que és a razão de eu continuar a lutar. Mas, infelizmente, a vida levou-te antes que eu te pudesse fazer ficar. Gostava de te voltar a ver, olhar-te nos olhos e ter a certeza de que serás para sempre o grande amor da minha vida. Gostava de voltar a sentir aquele turbilhão de sentimentos que me causavas, desta vez sem sermos dois adolescentes imaturos a brincar aos contos de fadas. Mas sabes o que mais gostava? Gostava de poder deitar a cabeça no teu peito quando o caos me atormenta e a ansiedade me domina, e ficarmos assim: no silêncio que tão bem conhecíamos e que sarava as feridas de ambos. Sinto falta de tudo isto. Não voltei a amar depois de ti, e é algo que me assusta. Estarei eu viva?! Ou será que parti contigo?
Há tanto para te contar e tão pouco para dizer. Tu serás para sempre tu, e daqui em diante mesmo que tenha finalmente decidido dar uma oportunidade ao meu coração de ser feliz, parece tão difícil que alguém consiga ter capacidade para lidar com ele. E assim continuo refugiada em mim, a usar frequências cardíacas estupidamente altas para acalmar a minha mente, e focada em salvar vidas impossíveis de trazer de volta, mesmo que isso me faça revoltar mais e mais com a vida (ou quero dizer com a morte?). Na verdade, pouco importa. Após a tua partida, ficou o hábito de ser eu contra o mundo. Mas prometo melhorar, lutar por mim e por ser feliz, ainda que não te volte a encontrar. Pelo menos, não nesta vida. Talvez numa outra. Até um dia, meu amor.